terça-feira, 19 de janeiro de 2010

[Entre colchetes]

"Mas o que fomos nos um para o outro: apenas companheiros ocasionais de viagem? com o tempo contado, com tudo previamente estabelecido e com prazo de validade previsto à partida? Foi só isso, diz-me, foi só isso o nosso encontro? Não ficou mais nada lá trás, não deixámos nada de nós dois no deserto que atravessámos?"
No teu deserto, Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sublinhado

"Há mulheres que querem que seu homem seja o sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.
No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher tanto quanto eu. As suas mãos as quero firme quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade."

O Fio das Missangas, Mia Couto

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

[Entre colchetes]

"Eram estranhos os desvios de memória das pessoas da aldeia: coisas que eles se empenhavam em lembrar às vezes fugiam e se escondiam bem no fundo, sob o manto do esquecimento. E exatamente aquilo que decidiam que era muito importante esquecer, justo isso vinha à tona, e saía de dentro do esquecimento como se fosse, intencionalmente, para incomodar."

De repente, nas profundezas do bosque, Amós Oz

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Os livros de 2009

Eu queria ter escrito este post antes do ano passado terminar, mas não deu. Mesmo tendo entrado em férias coletivas dia 18 de dezembro, eu acabei me enrolando e não deu.
Eu queria ter escrito este post logo que eu voltei de viagem, mas peguei uma virose e eu acabei tendo umas tarefinhas chatas para fazer e não deu.
Mas, então, escrevo agora.

Para começar, tenho que dizer que 2009 foi um ano MUITO especial pra mim. Então, definitivamente ele se divide antes e depois de março - quando casei. Relendo agora a lista de livros lidos, realmente parece que os livros que li antes de março fazem uma eternidade. Parece que foram lidos em outra época. Muita estranha esta sensação.
O fato é que li, durante o ano de 2009, 33 livros. O mês mais literário foi junho, com 8. Mas em julho e agosto - nem sei bem porquê - não houve leituras.
No meio do ano travei uma batalha com as coisas lidas: nada me agradava e eu estava em busca do livro perfeito. Até que, no final de junho, eu comprei e li Antes de nascer o mundo, do Mia Couto. Pronto! Achei o livro do ano e quem sabe, até talvez, o livro da vida.

Eis a lista de 2009:
Janeiro
Carmem, Uma biografia, Ruy Castro
Melancia, Marian Keyes
Romântico, sedutor e anarquista: Como e por que ler Jorge Amado hoje, Ana Maria Machado
Um baiano romântico e sensual, vários
Marca D´Água, Joseph Brodsky
Os da minha rua, Ondjaki
E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto, Rubem Fonseca
Fevereiro
A grande arte, Rubem Fonseca
O fotógrafo - volume 1, Guibert Lefévre, Lemercier
O fotógrafo - volume 2, Guibert Lefévre, Lemercier
O Escafandro e a Borboleta, Jean-Dominique Bauby
Março
Políticas Públicas Sociais e os Desafios para o jornalismo, vários
Abril
Fazendo meu filme 1, Paula Pimenta
Maio
Leite Derramado, Chico Buarque
A cidade ilhada, Milton Hatoum
A história do pranto, Alan Pauls
O verão de Chibo, Vanessa Bárbara e Emílio Fraia
Junho
Um copo de cólera, Raduan Nassar
Para sempre - amor e tempo, Ana Maria Machado
Limeriques do bípede apaixonado, Tatiana Belinky
Perto do coração selvagem, Clarice Lispector
Joana a contragosto, Marcelo Mirisola
De repente, nas profundezas do bosque, Amos Oz
Às margens do Sena, Reali Jr.
Antes de nascer o mundo, Mia Couto
Setembro
Cartas portuguesas, Mariana Alcoforado
Dente de Leão, Cecília Borges
A fera na selva, Henry James
Outubro
Cuca Fundida, Woody Allen
O Rei da Noite, João Ubaldo Ribeiro
Novembro
O amor nos tempos do cólera, Gabriel Garcia Marquez
Um bom par de sapatos e um caderno de anotações, Anton Tchékov
Dezembro
No teu deserto, Miguel Souza Tavares

sábado, 19 de dezembro de 2009

Dos sonhos e das palavras

62,8% das pessoas que chegaram até o Literaturar vieram por algum site de busca, procurando por Ondjaki. Ele, você sabe, é um dos queridinhos e talvez seja por isso que as pessoas acabam caindo aqui. Que bom que ele nos traz visitantes, e eu espero mesmo que eles retornem uma segunda, terceira, décima vez.

E então é final de ano e eu queria contar que uma vez eu escrevi pro Ondjaki. Eu tinha acabado de ler Os da minha rua, e estava completamente apaixonada pelo livro. Talvez, em anos mais remotos, eu escrevesse uma carta para a editora, e talvez eles entregassem a ele, e talveeez ele me respondesse. Mas o endereço de email estava lá, na última página, e eu não pensei duas vezes antes de escrever:

O personagem do "Apanhador no Campo de Centeios" (como é mesmo o nome dele? Holden?) dizia:
"Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer."

É raro mesmo.
Mas aconteceu com você.
Terminei de ler "Os da minha rua" e tenho vontade de lhe telefonar e dizer: é tão terno que eu poderia ficar brincando com vocês o resto da vida!

Parabéns, Ondjaki!

Um beijo de longe, do Brasil,

Tatiana


Era 22 de novembro e em 22 de fevereiro eu já nem lembrava mais que tinha escrito. Então abro o meu email e, em negrito, está lá: mim, Ondjaki(2)

Abri entre ansiosa e emocionada e encontrei:

....
Não sei o que dizer...

Obrigado.....
As palavras são pra partilhar..... Os sonhos também....

Um abraço,
O.




Daí que é final de ano e eu queria dizer que o Ondaki tem razão: as palavras são pra partilhar e os sonhos também. Que esse seja um ano de muitas palavras e muitos sonhos, todos absolutamente partilhados com as pessoas que importam!

Um ótimo 2010 pra todos nós!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Sublinhado

No carro, o Caetano canta "existir a que será que se destina" e isso tem a lógica divina de quem sabe o desassossego das angústias partilhadas.

Amor em segunda mão, Patrícia Reis

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

[Entre colchetes]

"Era a tiete, um espelho do quarto, eu mesmo, qualquer coisa que me enganava e enganava-se a si mesma em razão de uma boa história que havíamos inventado e que, em última análise, havíamos levado até o final, juntos."

Joana a contragosto, Marcelo Mirisola